PRAIA DA VITÓRIA

Contexto Geográfico

O concelho da Praia da Vitória localiza-se na Região Autónoma dos Açores na ilha Terceira. A ilha pertence ao grupo central do arquipélago dos Açores. O concelho é limitado a sul, oeste e sudoeste por Angra do Heroísmo, e a norte e a leste pelo oceano Atlântico. Ocupa uma superfície de 162,3 km2, distribuída por 10 freguesias: Agualva, Biscoitos, Cabo da Praia, Fonte do Bastardo, Fontinhas, Quatro Ribeiras, Porto Martins, Santa Cruz, São Brás e Vila Nova. Tem também uma vila de nome Lajes.
Em termos populacionais, o concelho apresenta 21 035 habitantes.
O clima nesta região é ameno e húmido, com temperaturas médias que oscilam entre os 14 ºC e os 22 ºC, e com uma precipitação regular ao longo do ano, responsável pela fertilidade dos solos e pela existência de alguns recursos hídricos, de que são exemplo as ribeiras Seca, das Pedras e dos Pães. O relevo é caracterizado por basaltos, materiais de projeção e andesitos, sendo constituído por várias formações geológicas, nomeadamente: ilhéu do Norte, Servidão (369 m),Pico Alto (808 m), Ponta da Má Merenda, Baía do Zimbral e Ponta da Serra das Lajes.

História da Praia da Vitória – do Povoamento à ocupação espanhola da Ilha

Nascida apenas Praia, a atual cidade terceirense fez um percurso interessante e indelével no desenrolar da História de Portugal. A Praia da Vitória tem uma riqueza histórica que a memória não pode, nem deve ser esquecida.
A 2 de março de 1450, o Infante D. Henrique doava a capitania da Terceira (na época Ilha de Jesus Cristo) ao flamengo Jácome de Bruges, que se tornou assim no 1º Capitão-Donatário da Ilha. Segundo Gervásio Lima, a 1 de janeiro de 1451, 10 meses depois da doação, o Capitão Jácome de Bruges chegava à Terceira com dois navios, transportando vacas, porcos, ovelhas e cabras, que depois lançou nas terras recém-povoadas. Era o início do povoamento da Terceira.
Existem várias teorias sobre por onde Jácome terá desembarcado, para uns nas Quatro Ribeiras, para outros no Porto Judeu, mas o que se pode concluir das fontes foi que Jácome e os seus homens exploraram as Quatro Ribeiras, depois um punhado deles desembarcou aí, Jácome e os restantes seguiram viagem, vendo as possibilidades do porto e terreno da Praia e da Baía das Mós, e finalmente entrado na Ilha pelo Porto Judeu. Houve assim 2 sítios de desembarque.
Jácome de Bruges voltou ao Continente para aí procurar famílias para o povoamento da sua capitania. Vieram sobretudo gentes de Guimarães, de Aveiro, de Lagos, do concelho de Vieira e do Porto. Acompanharam ainda o Capitão Bruges alguns frades franciscanos, como Frei João da Ribeira, trabalhadores e artífices, que, acampando no Vale do Paul ou Planície dos 5 picos (São Sebastião), chamaram a este sítio Sant’Ana da Porta Alegre ou do Porto Alegre, onde edificaram os primeiros abrigos e erigiram o 1º templo (1454) com a imagem de Sant’Ana que os acompanhara ao longo da viagem.
Bruges foi responsável pela criação, no atual lugar do Canto da Câmara, no Porto Martins, da 1ª Câmara da Ilha. Estes primeiros tempos foram marcados pela distribuição de terras e da exploração destas que, na região da Praia, eram mais produtivas. Assim, entre 1456 e 1474, o lugar da Praia era a sede da capitania da Terceira. Bruges tomou para si a planície do paul, bem como os terrenos junto à Serra, a que chamou de São Tiago e dividiu alguns com seu loco-tenente, Diogo de Teive (situação que depois levaria a uma “guerra” entre os herdeiros de Jácome e de Teive pela posse das terra). Foi o responsável, entre outras obras, pela construção da Igreja de Santa Cruz, a Matriz da Praia.
Álvaro Martins Homem, o 2º capitão donatário da Ilha, depois de ter fundado a Vila de Angra deu início a várias construções e obras, impulsionando o seu desenvolvimento. Devido a constantes desavenças internas, a Ilha foi dividida, em 1474, em duas capitanias, a de Angra, entregue a João Vaz Corte Real, e a da Praia, ao anterior Capitão-Donatário da Ilha, Álvaro Martins Homem. Este perdeu as benfeitorias de Angra (casa, moinhos e terras), mas recebeu, por esse dano, uma indemnização do novo Capitão de Angra e, com isso, apostou no desenvolvimento da Praia, que acabou elevada a Vila em 1480.
Na década 60 do século XVI, em um período em que o Atlântico era cada vez mais cobiçado pelas restantes potências europeias, iniciou-se na Terceira a construção de uma linha de Fortes, que incluía a Praia. Era preciso defender e proteger a Ilha. Foi na Terceira, em Angra, que em meados do século XVI, se estabeleceu a 1ª cidade dos Açores e a sede da Diocese açoriana. Devido à sua angra natural, a Ilha foi, desde os primeiros tempos, um importante porto de escala do Atlântico Norte, depois obrigatório, por mais de 3 séculos, desempenhando um papel importante na afirmação do Império Português. Assim, pela Terceira passavam produtos de todo o Império português, o que fazia da nossa Ilha um lugar apetecível a ataques de piratas e de corsários por toda a costa terceirense, incluindo a Praia.
Depois da perda da independência de Portugal, com a União Ibérica, com Filipe II de Espanha a tornar-se rei de Portugal, a Terceira tornou-se o único ponto do país que ficou do lado do candidato D. António, o Prior do Crato. Foi na Praia que D. António desembarcou e foi aí que, em 1582, foi aclamado Rei novamente (já o havia sido em Santarém). Datam deste período a famosa Batalha da Salga, as histórias de Brianda Pereira e de D. Violante do Canto e a notável carta (de 13 de fevereiro de 1582) de Ciprião de Figueiredo, corregedor dos Açores, a Filipe II, onde afirmava: “antes morrer livres que em paz sujeitos”, hoje a divisa dos Açores. Só em 1583 a Terceira foi subjugada pelos espanhóis, comandados por D. Álvaro de Bazán, no conhecido Desembarque da Baía das Mós. Contudo, devido à importância da Ilha como porto de escala, foi construída, em Angra, a maior fortaleza filipina do mundo, o Castelo de São Filipe, hoje chamado de São João Batista, um excelente exemplo da arquitetura militar renascentista.
Estes primeiros 150 anos da História da Terceira, ficaram marcados pelo povoamento, iniciado da Praia, e pela posição geoestratégica que a Ilha desempenhava no Atlântico.

História da Praia da Vitória – da Restauração até aos dias de hoje

A Praia se reergueu depois das chamadas duas “Caídas” da Praia, sem esquecer a Vitória conseguida pelo Liberalismo na atual cidade terceirense e que marcou a História do País.
A 24 de maio de 1614, a Praia sofreu um terramoto, que destruiu e abalou o nordeste da ilha, na chamada 1ª Caída da Praia. Foram várias as casas, igrejas e ermidas destruídas. O povo afligiu-se, assustou-se, mas habituado a estes revezes da natureza, agarraram-se à sua fé e começaram as obras. Em São Sebastião, que na época tinha câmara, também afetada com o sismo de 1614, homenageou-se e relembrou-se a 1ª Caída da Praia com uma procissão nesta data por quase 1 século.
Com a Restauração da Independência, em 1640, o país aclamou o novo rei português, D. João IV, contudo existiam na Terceira 5 centenas de militares espanhóis comandados por D. Álvaro de Viveiros, que resistiram à independência de Portugal. A 24 de março de 1641, em um Domingo de Ramos, o capitão-mor da Praia Francisco Ornelas da Câmara, à saída da missa, em pleno adro da Matriz da Praia, aclamou D. João IV como rei de Portugal, jurando-lhe obediência e fidelidade. Uns dias depois, a 27 de março de 1641, iniciava-se o cerco aos espanhóis. Angra era então ocupada militarmente pelo seu Capitão-mor, João Bettencourt de Vasconcelos, que pediu auxílio militar a Francisco Ornelas da Câmara. Este reuniu as tropas da sua capitania e marchou para a cidade. Eram já 1 500 homens. Começava então a chamada Guerra do Castelo, que duraria 11 meses, pois os espanhóis só se renderam a 4 de março e saíram do Castelo a 6 de março.
As décadas seguintes foram marcadas pela reconstrução da então Vila da Praia, sobretudo porque houve um período longo de pequenos sismos que abalaram as reconstruções depois da 1ª Caída da Praia. Até que, a década de 20 do século XIX, veio colocar a Terceira, sobretudo a Praia, no centro das atenções nacionais. Assim, a 11 de agosto de 1829, deu-se na Praia a maior batalha contra o absolutismo. O exército de D. Miguel tentou desembarcar na Praia, com os seus 4 000 homens, 340 peças de artilharia e 6 barcas canhoneiras. A defesa terceirense era composta por pequenos fortes de marinha e algumas baterias. O Duque da Terceira assumiu o comando das tropas liberais. Os absolutistas tentaram desembarcar junto ao areal da Praia, mas muitos jovens, que tinham acabado de incorporar o exército liberal, juntaram-se aos restantes militares e defenderam os fortes com muita garra. Durante 4 horas, os miguelistas foram responsáveis por 5 000 tiros, mas este ataque não assustou, nem desmoralizou os locais. Com a linha de Fortes reforçada, os terceirenses passaram ao ataque. Com os vários Fortes a defender, o de Santa Catarina e o de Espírito Santo, atacaram a fragata Diana e conseguiu-se assim evitar o desembarque e manter livre a “Ilha-Fortaleza”. O exército absolutista saiu derrotado. Iniciava-se uma nova fase na História do país, que terminaria com a derrota miguelista em Évora-monte, em 1834.
Em recompensa ao apoio dado à causa liberal, D. Maria II atribuiu, a Angra, o cognome de “mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e o de “Mui Notável” à Praia da Vitória. Alexandre Herculano, Historiador liberal, no seu livro Scenas de um ano da minha vida e Apontamentos de viagem, chegou mesmo a apelidar a Terceira de “rochedo da salvação”, mostrando a importância que a Ilha teve no desenrolar da História de Portugal.
A 15 de junho de 1841, a Praia da Vitória sofreu um forte terramoto que levou ao que se chama da 2ª Caída da Praia. Era possível ver, então, uma enorme fissura no centro da ainda Vila. A terra tremera e fizera os seus estragos. Com a 2ª Caída da Praia, grande parte do Ramo Grande foi destruído, sobretudo as Fontinhas, e, em menor grau, as freguesias circundantes, com centenas de casas danificadas. No meio do sismo, um homem surgiu e desempenhou um papel de destaque, José Silvestre Ribeiro, o governador do novo distrito de Angra do Heroísmo. Desde o 1º dia, Silvestre Ribeiro seguiu os passos de Pombal e tratou de cuidar dos vivos. Em uma política de grande empenho, ajudou-se os desfavorecidos e apostou-se na reconstrução do Ramo Grande. O Governador incentivou o desenvolvimento dos sectores da saúde, da assistência, mas sobretudo da educação da Praia da Vitória. Silvestre Ribeiro procurou fiscalizar a reconstrução e criou um verdadeiro plano arquitetónico e urbanístico, que permitiu a clara melhoria da qualidade das habitações e do traçado da Praia da Vitória e das freguesias afetadas. Surgiu, então, a chamada Arquitetura do Ramo Grande, hoje considerada como a de melhor qualidade estética e funcional nos Açores. Também o Capitão João Borges Pamplona, um terceirense e importante oficial da marinha mercante portuguesa, que entrou para a História nacional pelos importantes préstimos prestados à Coroa portuguesa, era próximo de D. Maria II, conseguindo apoios para a reconstrução da Vila, mas sobretudo, que esta não perdesse o seu estatuto de Comarca, como muitos pretendiam. O Capitão morreria na então Vila da Praia da Vitória, na sua casa.
Entre junho de 1940 e junho de 1941, deu-se o período de maior perigo à manutenção da neutralidade de Portugal durante a II Guerra, com os alemães estacionados nos Pirenéus. Assim, Salazar enviou várias vagas de militares do Continente para a defesa dos Açores, sobretudo para as 3 principais Ilhas, Terceira, São Miguel e Faial (1941-1942). Na Terceira, aceite como a Ilha melhor para se construir um novo aeródromo, começou-se a expropriar terrenos e a construir a nova pista, na então freguesia das Lajes. Nascia a Base das Lajes, denominada por despacho de Oliveira Salazar de Aeródromo das Lagens. Uns meses depois, a 8 de outubro de 1943, em um momento diferente da II Guerra, com a reviravolta a favor dos Aliados, 3 milhares de militares britânicos instalaram-se na Terceira, após a concessão de facilidades à Inglaterra na Ilha, no contexto do conflito mundial. A pista era aumentada e a Base ganhava contornos totalmente militares. No dia 9 de janeiro de 1944 eram os norte-americanos a chegarem à Ilha. A pista recebia novas obras de aumento e tornava-se então na maior do mundo. A 6 de outubro de 1946, os militares ingleses partiam da Ilha, ficando cá os EUA até hoje ininterruptamente. Esta Base tornou-se essencial não só para a História recente de Portugal, como marcou a vida da população da Terceira, em geral, e da Praia, em particular. Daí todos os problemas nascentes da diminuição da presença norte-americana na Ilha, depois de 70 anos de convívio.
A 20 de junho de 1981, a Praia da Vitória era elevada a cidade, crescendo e evoluindo como era possível. Esta data passou a ser o feriado municipal por vários anos, até que, no âmbito das comemorações dos 175 anos da célebre batalha de 1829, em 2004, passou a ser o da Batalha da Praia.
Atualmente a Praia da Vitória enfrenta vários problemas socioeconómicos mas os locais, com as suas características da garra, da força, da perseverança e do orgulho, querem lutar e ver o seu município a crescer e a desenvolver-se.